VIVIENNE WESTWOOD: AS TRANSIÇÕES E AS DISPUTAS
DISCURSIVAS DA RAINHA DO PUNK
VIVIENNE E O PUNK
As tensões sociais diante da desilusão da classe operária com a sociedade Britânica
do pós-guerra, no início da década de 1970, desencadearam um ambiente propício ao
desenvolvimento de movimentos de transformação social. Este foi o cenário para o
surgimento do punk, um movimento cultural e ideológico, que nasceu como expressão de
niilismo em uma pequena subcultura de jovens britânicos e tinha como pressuposto a
transformação e contestação da sociedade, a negação ao consumismo e os padrões estéticos dominantes. Já no início do movimento, o punk passou ainda a associar-se ao anarquismo.
Há o reconhecimento de diversas vertentes surgidas a partir do punk, como é o caso do
chamado anarcopunk e também o streetpunk.
Ícone da moda do século XXI, a estilista Vivienne Westwood, ao lado do seu
segundo marido, o empresário musical Malcolm McLaren, foram uns dos precursores deste
movimento. Em 1971 os dois abriram a loja Let It Rock, na Kings Road, em Londres,
vendendo artigos característicos do rock dos anos 50. Um ano mais tarde, a loja passou a se chamar Too Fast to Live, Too Young to Die, e já incluía roupas criadas por Westwood, mas devido a sua ousadia, ocorreram problemas com a justiça. Assim, em 1975 surgia um novo letreiro, dessa vez com o nome SEX (ANEXO 1), que vendia tanto as criações da nova
estilista como também artigos de sex shop.
Westwood e McLaren assimilaram elementos da moda de rua para elaborar um traje
fortemente rebelde, ligado à música punk. Em parte, esse traje lançava mão da linguagem
visual do vestuário desenvolvida nas duas décadas anteriores – jaqueta preta de motociclista, camiseta jeans -, mas acrescentava elementos novos, como tachas de metal na jaqueta e nos cintos, alfinetes de segurança usados como brincos e como enfeites para o rosto, jeans rasgados ou cortados e um cabelo característico, freqüentemente tingido de cores fortes e artificiais . O abuso do corpo e do vestuário e a utilização da tática de bricolagem proposta por Lévi-Strauss expressavam o sarcasmo e o niilismo com relação aos valores do establishment.
Vivienne Westwood enfatizava a paródia e a ambigüidade de gênero, no intuito de
desafiar as imagens tradicionais de feminilidade através da expressão de preferências
sexuais e desvio sexual normalmente vistos como marginais pelo grande público, em
especial a bissexualidade e a androgenia. Apresentava roupas que não sugeriam
interpretações dominantes dos papéis femininos, diferente dos que dominam as coleções de estilistas mais convencionais.
Assim como Westwood, outros jovens estilistas britânicos da década de 1960
desenvolveram roupas não convencionais, não propriamente como estratégia de marketing, mas em resposta à natureza do ambiente em que haviam sido formados. As carreiras na área de artes e design em geral atraíam estudantes das classes média e baixa e operária, que mas relutavam em acomodar-se nas profissões rotineiras da classe operária. Enquanto os estudantes das escolas francesas de design criavam roupas que mostravam a influência dos principais estilistas, o trabalho dos estudantes britânicos tendia a ser influenciado pela cultura de rua da classe operária.
As escolas britânicas de artes estabeleciam uma fronteira comum entre moda, cultura
das ruas e música rebelde, e seus criadores muitas vezes começavam a carreira
apresentando-se nesses mesmos ambientes. Os estilistas e designers eram parte dessa
comunidade, juntamente com compositores e intérpretes de música popular, cineastas e
criadores de vídeo, dançarinos e atores. Deste modo, vários fatores contribuíram para criar na Inglaterra uma situação em que o jovem estilista tinha afinidade com o vestuário
antagônico, e não com os estilos das classes altas: a atmosfera das escolas de artes e design, a riqueza das culturas urbanas de rua, a idéia da vestimenta como afirmação pessoal e subversão em oposição à conformidade, bem como a escassez de oportunidades para os jovens na indústria britânica do vestuário.
Com o apoio de Vivienne Westwood, os punks desenvolveram uma imagem singular
e subversiva a partir também dos códigos do vestuário. A moda punk era deliberadamente
contrastante com a moda vigente e apresentava elementos contestatórios e ofensivos aos
valores hegemônicos da sociedade, bem como desconstruções de discursos dominantes.
É válido salientar que as subculturas juvenis do período do pós-guerra, a exemplo do
punk, proliferaram à medida que os adolescentes e jovens dispunham de mais tempo e
opções de lazer e se tornaram um importante foco de atenção da indústria cultural, o que
torna o punk um exemplo da intricada associação que se desenvolveu entre cultura popular, moda e subculturas juvenis. Essas subculturas são geralmente definidas como subgrupos com estruturas sociais identificáveis, formas características de expressão simbólica, rituais próprios e conjuntos específicos de valores e crenças compartilhadas. O estilo e a aparência estão entre os principais elementos da formação discursiva dos punks, a sua identidade subcultural.
O vestuário é um elemento que os jovens podem controlar com relativa facilidade e
utilizar para afirmar-se diante do ambiente social (CRANE, 2006). Apropriando-se de
estilos existentes e combinando-os de novas maneiras, misturando objetos, vestuário e
penteados de forma a definir uma identidade que evidencie suas experiências pessoais e a
situação de um grupo em particular.
Contudo, não se deve entender o punk apenas a partir da sua moda, mas igualmente
atentar para outros produtos culturais, como a música. Pode-se afirmar que tal subcultura se estruturou principalmente na relação entre a moda e a música, e é daí também que surge uma Vivienne Westwood denominada como estilista do punk. Em 1975, ao mesmo tempo em que abria a SEX, McLaren organizava a lendária banda punk Sex Pistols ,
formada por homens de classe operária do bairro próximo à sua loja de roupas. Os jovens do Sex Pistols, nome que aludia também à loja do casal, se difundiam como expoentes do
chamado punk rock. Com letras conflituosas e de crítica à sociedade da época, os Pistols
foram um dos precursores do sistema de gravadoras independentes. Westwood era a
idealizadora das suas roupas, e além de criar a linguagem visual do Sex Pistols, ela vestia
outras bandas, o que a popularizou como “estilista-punk”, título que detém ainda hoje.
O punk, enquanto gênero musical, aparece como um dos subgêneros do rock. Porém,
em relação ao ritmo e a perfomance, o punk contrastava com o aquele, pois as notas rápidas, sem os tradicionais solos de guitarra, e ainda a forma de se vestir reproduziam a idéia do " faça você mesmo”. O subgênero punk surge, assim, como estratégia de interação dentro de um sistema complexo de produção e reconhecimento onde se visa à produção de sentido numa determinada sociedade através dos seus apelos sobre o contexto sócio-político.


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